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Seis poemas de Ramón López Velarde al portugués

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DOMINGOS DE PROVÍNCIA

Nos claros domingos de minha aldeia, é costume
que na praça descubram as gentis cabeças
as moças, e os seus olhos reflectem doçura
e a banda no quiosque toca lânguidas músicas.

E ao cair sobre a aldeia a noite sonhadora,
os amantes olham-se com o melhor olhar
e a orquestra nas suas flautas e violino entesoura
mil sons românticos na noite festiva.

Os dias de festa em aldeias de província
oferecem ao viajante gratos amanheceres
em que frescos os rostos, o Lavalle nas mãos,

a caminho da igreja vão as moças com pressa;
que nos dias festivos, entre aquelas mulheres
não há uma cara formosa que fique sem missa.

 

 

PARA OS TEUS PÉS

Hoje contemplo-te ao piano, senhora minha, Fuensanta,
as mãos sobre as teclas, nos pedais do pé a planta,
e ambiciona santamente a sorte dos pedais
meu coração, por estarem debaixo de teus pés ideais.

Porque eu sei que essa planta é de todas a mais pura,
as sua plantas sabem as rotas sangrentas da Paixão,
que por ir Jesus Cristo pelas ruas da Amargura
deixou a senda de lírios de Belkis e Salomão.

E assim te imploro, Fuensanta, que em meu coração caminhes
para que teus pés aromatizem o âmago pecaminoso,
cujos caminhos poeirentos e desolados jardins
te hão-de devolver em rosas o joio mais infrutuoso.

Nas tertúlias de noites de prolongada vigília,
ao piano me pareces moderna Santa Cecília
que qual solícita noiva, com seus harmónicos pés,
com a magia dos olhos e o milagre do ruído,
vencendo horas e distância me leva sempre através
dos vales lacrimosos, ao Paraíso Perdido.

 

 

ENQUANTO MORRE A TARDE…

Nobre senhora de província: unidos
na velha varanda que olha o poente,
falamos tristemente, longamente,
de alegorias mortas e tempos idos.

Dos rústicos canteiros florescidos
apanho rosas para enfeitar tua testa,
e há nos freixos do jardim em frente
um escândalo de aves nos ninhos.

O crepúsculo cai sonolento,
e se com teus desdéns abrandas
a chama de meu amor, eu contento-me

com o fundo olhar de teus arcanos
olhos, enquanto admiro as antigas
jóias das avós nas tuas mãos.

 

 

O SINEIRO

Contou-me o sineiro esta manhã
que o ano vai mau para os trigais.
Que Juan está noivo de uma prima-irmã
rica e formosa. Que morreu a Susana.
O sineiro e eu somos amigos.

Contou-me amores da sua juventude
e com voz rachada de homem forte,
ao ver passar os negros ataúdes
fez-me a narração de mil virtudes
e falámos da vida e da morte.

– E a sua boda, senhor?
– Cala-te, ancião.
– Será para o inverno?
– Por então,
e se ainda viveres quando a sua mão
me dê a Morte, sineiro irmão,
faz dobrar por minha alma teus bronzes.

 

 

A TUA PALAVRA MAIS FÚTIL…

Madalena, entendo que te amo
quando a mais trivial das tuas acções
é pasto para mim, como a migalha
é a felicidade dos pardais.

Tua palavra mais fútil
é combustível da minha fantasia,
e passa por meu espírito feudal
como um raio de sol por um outeiro.

Uma manhã (em que a própria prosa
do viver se tornava melodiosa)
davam-te um jornal no transporte
e recusaste, dizendo com voz cálida:
«Para que me dás isto?» E estas cinco
breves palavras de tua boca pálida
foram como jóia que todo o dia
na minha capela esteve exposta;
e à noite, soava a tua pergunta:
«Para que me dás isto?»

E na tarde fugaz em que no teatro
repassavam teus dedos, Madalena,
a dourada melena
de um garoto… E o altivo ademane
com que deste esmola àquele ancião…
E teus dentes que vão
num sorriso ondulante, qual resumos
do sol, encandeando a insegura
pupila dos velhos e dos miúdos…
Teus dentes, em que estão a travessura
e o relâmpago de um pueril espelho
que aprisiona do sol uma seta
e crava o raio ardente nos olhos
da criança embasbacada
que no seu berço vegeta…

Também eu, Madalena, me deslumbro
com teu sorriso ardente; e minhas horas
vão atrás de ti, famintas e canoras,
como vai atrás da ama, pela largueza
de um pátio regional, o cortesão
séquito de pombas que cobiçam
a gota de água azul e a loura semente.

 

 

A ESTROFE QUE DANÇA

Para Antonia Mercé

Já brotas da cena como algarismo
girassol, e desfloras o mutismo
com os toques undívagos de teus pés certeiros
que duros se amaneiram ao marcarem feiticeiros
as múltiplas voltas de uma só quimera.

Já teus olhos entraram no combate
como duas uvas de um guloso doce;
sob tuas castanholas rendem-se os destinos,
e prendem-se a ti os sonhos masculinos,
como da corda frágil de uma lira, os trinos.

Já te adula a orquestra com servil
rasto libidinoso de réptil,
e dançando lacónica, teu olhar de soslaio me plagia,
e pisas meu entusiasmo com uma cruel magia
como estrofe dançarina que pisa uma hemorragia.

Já voas como um rito pelos planos
limítrofes de todos os arcanos;
as almas que teu arrulho vai limpando de escória
quiseram renunciar ao seu futuro e à sua história,
para dormirem na suave amnistia de tua glória.

Algarismo, cordata e exemplar figura:
tua rítmica e eurítmica cintura
rouba-nos a todos nossa chama pura;
e seus calcanhares trânsfugas, que saem do mundo
pela tangente dócil de um enevoamento profundo,
levam meus folguedos ao azul pudibundo.

 

Versiones de Nuno Júdice

 

 

Nuno Júdice es un ensayista, poeta, novelista y profesor universitario portugués. Consejero cultural de la Embajada de Portugal y director del Instituto Camões en París, publicó antologías, crítica literaria, historia, estudios de Teoría de la Literatura y Literatura portuguesa y mantiene una colaboración regular en la prensa. Divulgador de la literatura portuguesa del siglo XX, publicó, en 1993, Voyage dans un siècle de Littérature Portugaise. Organizada la Semana Europea de la Poesía, en el ámbito de Lisboa ’94 – Capital europea de la cultura. Es actualmente director de la Revista Colóquio-Letras de la Fundación Calouste Gulbenkian. Poeta y novelista, su debut literario tuvo lugar con A Noção de Poema (1972). En 1985 recibiría el Premio Pen Club, el Premio D. Dinis de la Fundación Mateus en 1990. En 1994, la Asociación Portuguesa de Escritores, lo distingue por la publicación de Meditação sobre Ruínas, finalista en el Premio Aristeion de Literatura Europea. También firmó obras para teatro y tradujo a autores como Corneille y Emily Dickinson. Fue director de la revista literaria Tabacaria, publicado por Casa Fernando Pessoa y comisario para el área de Literatura portuguesa en la 49.ª feria del libro de Frankfurt. Cuenta con obras traducidas en España, Italia, Venezuela, Reino Unido y Francia. El 10 de junio de 1992, se convirtió oficial de la Orden de Santiago de la Espada, y el 10 de junio de 2013, fue ascendido a gran oficial de la misma orden.

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